Olha, aniversário e defesa delícias de se ver hein. Nem sei por onde começar, mas voilá.
Esqueci minha idade?
Fui trabalhar de manhã e nem tchuns pra nada, um pouco ansiosa pela apresentação que faria na sexta. Pior, trabalhando e repondo zilhões de aulas por conta da greve malsucedida. Não lembro de ter trabalhado no meu aniversário antes, e claro, não esperava que ninguém lembrasse mesmo. Eis que na hora do intervalo entro na sala dos professores, pego meu lanchinho, sento no cantinho e noto a cara de ué da professora de artes, uma fofa. Pensei que ela estava fofocando sobre alguém né, e encostaram a porta por motivos de privacidade. Fiquei abobada quando ela e a professora de informática tiraram um bolinho lindo da geladeira e começaram a cantar parabéns para mim. Foi realmente de arrasar meu coração, e claro, fiquei igual uma boba ouvindo o parabéns e com cara de ué. Coisa mais fofa EVER. Valeu gente. Ainda sobre o meu níver: esqueci que idade eu tenho, minha irmã que me corrigiu via facebook (pode rir agora, eu acreditava estar um ano mais velha) e ganhei presente de uma linda que tá afastada da escola (saudade e volta logo hein). Por isso que eu digo: é preciso criar umas raízes para fazer amigos.
Defesa e king kong, com amor
Nervosa, ontem eu realmente não sabia muito bem quem eu era. Encontrei minha irmã no metrô Paulista e vesti uma capa de calma absoluta para apresentar sem gaguejar. Chegamos meia hora antes e descobri que ia defender na Sala dos Espelhos, mais medo, sala imponente da porra. Ajustei tudo e fiquei aguardando fazendo cara de tá tudo bem, vai acabar logo.
Esperava ser detonada em alguns aspectos: excesso de descrição e pouca análise, dissertação esquizofrênica que abre muitas frentes e principalmente algumas afirmações na conclusão com as quais eu não concordava mas que minha orientadora concordava (isso acontece e não tive como bater o pé). Então fui preparada para as críticas. O que tive foi uma surpresa: apesar dos erros pontuais de digitação (é, ainda tinha), de repetição de idéias, de escrita e das inconclusões, os professores elogiaram, muito, mais do que eu esperava. Só posso descrever como uma banca de amor, muito amor. Os professores no final ainda me disseram: desculpa ser detalhista, mas tenho que ser assim, e apesar disso seu trabalho é excelente e quetais.
O king surgiu em forma de uma informação absurda, mas tão absurda no contexto do meu trabalho que fez todo mundo rir. E pior, além de estar em uma tabela na dissertação, coloquei a informação em um slide e como, em nome de deus, eu deixei isso passar? Como depois da independência as terras devolutas voltariam para a coroa portuguesa e que gafe, g-zuis.
Em algum ponto da banca eu acalmei mesmo, e não era mais aparência. Esqueci de dizer que além da minha irmã estavam os amigos de infortúnio, o lindinho, a Sheila e a Amália. Agora vem aquele período no vácuo no qual eu me dou conta de que não faço parte da comunidade acadêmica e sinto-me órfã de pai e mãe.
Entretanto, preciso publicar pelo menos 2 artigos antes de pensar em qualquer coisa, e sem pressa.
Chocolate quente batizado
Saímos da Fau e fomos para o boteco e o frio convidou a beber algo para esquentar. Ficamos ali falando da vida e dos planos futuros e chegamos a tomar dois chocolates quentes com conhaque. Daí a bonita aqui foi pagar a conta, toda pomposa, deixa que eu pago e cadê os cartões?
Tinha colocados os 3 ditos cujos (um de débito e 2 de crédito, planejava fazer uma tattoo ontem) em uma bolsinha preta, com 20 reais. Lembro de ter pegado a bolsinha quando fui carregar o bilhete único na lotérica, e depois não vi mais. E revira a bolsa e revira e faz bico e sim, perdi meus cartões pela primeira vez na vida.
Por um tempo fiquei obsessiva procurando na bolsa, mas depois relaxei: todos tem senha e cancelo quando chegar em casa. Dentro do ônibus, ouvindo música, senti uma onda de alegria que olha, não sentia fazia muuuito tempo. Um alívio tremendo.
E vim para casa cantando, apesar de não ter feito a tattoo e não ter comemorado como se deve, com um porre mestre.
Hoje fui trabalhar, e sim, ainda me sinto aliviada e feliz.
Quero agradecer todos que me desejaram boa sorte e feliz aniversário e todos os que me ajudaram, de uma forma ou de outra, a terminar essa etapa da minha vida. Sei que esses 2 últimos anos foram cruéis e complicados, mas tudo fechou com chave senão de ouro, ao menos de prata. Beijo na boca de todos vocês.
Já percebeu que vivemos em um mundo onde os detalhes perdem a especificidade no geral e ganham um especialista no particular? Parece óbvio, ela disse. O dia estava particularmente colorido, o ar parado e sufocante de um verão intenso. Tamanha beleza deve ter seu preço, pensei silenciosamente enquanto ela desenrolava lentamente a sua teoria sobre o específico e o especialista. E de que outra forma a vida poderia ser narrada, ela disse, senão como uma história de investigação contínua e, passo a passo, surpreendente? O que me intriga é exatamente o paradoxo da massa, a multidão e a multiplicidade da vida, coisas que já incomodavam Poe, veja bem, que escreveu o seu homem na multidão que, por pura curiosidade inócua, segue outro homem de uma densa multidão. Poderia ter seguido qualquer um e descoberto qualquer história, e quantas histórias poderia ter descoberto não se sabe. Entretanto seguiu um apenas, afinando a lente, entrando no terreno das especificidades. A multidão multiplica as histórias ao ponto de anulá-las, macerando, triturando e amontoando-as, massa informe que se torna inútil, invisível, e o que fizemos em uma tentativa de desviar esse curso, o que criamos em contrapartida? O especialista mínimo, aquele que se dedica, de forma precisa, a investigar aspectos de uma única coisa. Fibras, ossos, poeira, pegadas, escolha um material e, com certeza você vai encontrar um especialista capaz de saber os mínimos detalhes e variações dessa coisa. Arrepio-me ao pensar em uma lavoura de corpos, ela disse. Imagine estudar cadáveres em decomposição dos jeitos mais inusitados, ao ar livre, metade enterrado, em ambientes fechados, observar, registrar. A curiosidade sem limites. Casos de séries televisivas levados ao extremo e além, a obsessão em decifrar as pistas através do micro, com uma lupa, reconstruindo um objeto pedaço por pedaço, retomando o controle perdido de uma cadeia de relações inimaginável. Perdemos o específico na multidão e criamos especialistas para nos ensinar tudo sobre o específico que anulamos diariamente.